AMATURÁ – AM

Após três noites  navegando sem  paradas rio acima o barco aportou em Fonte Boa.   Não acumulei muitas vivências argonáuticas, nem travessias em grandes extensões fluviais, mas todo esse volume líquido marrom que remete desde sempre à minha amada xícara de café com leite me provoca bocejos involuntários. É tedioso, homogêneo, um horizonte infindável de uma paisagem em loop programada para que sua mente atinja o estado alfa antes do final do primeiro dia de navegação. Algo assim me fez lembrar do artigo de uma socióloga de Bonn que comparou as florestas verticais e organizadas da Alemanha com a quizumba impenetrável e caótica das selvas sul-americanas, e essa eterna nostalgia do europeu nórdico por algo nunca vivido perante o choque de uma realidade gloriosamente antropofágica. Tudo aqui te devora. Os mosquitos, os répteis, os mamíferos, as febres, as gentes… A selva nostálgica que o europeu tanto ansiou, afinal, era tudo o que Freud liberou do inconsciente e que Fitzcarraldo buscou usando o subterfúgio de uma nova rota.

Após três noites  navegando sem  paradas rio acima o barco aportou em Fonte Boa.   Não acumulei muitas vivências argonáuticas, nem travessias em grandes extensões fluviais, mas todo esse volume líquido marrom que remete desde sempre à minha amada xícara de café com leite me provoca bocejos involuntários. É tedioso, homogêneo, um horizonte infindável de uma paisagem em loop programada para que sua mente atinja o estado alfa antes do final do primeiro dia de navegação. Algo assim me fez lembrar do artigo de uma socióloga de Bonn que comparou as florestas verticais e organizadas da Alemanha com a quizumba impenetrável e caótica das selvas sul-americanas, e essa eterna nostalgia do europeu nórdico por algo nunca vivido perante o choque de uma realidade gloriosamente antropofágica. Tudo aqui te devora. Os mosquitos, os répteis, os mamíferos, as febres, as gentes... A selva nostálgica que o europeu tanto ansiou, afinal, era tudo o que Freud liberou do inconsciente e que Fitzcarraldo buscou usando o subterfúgio de uma nova rota.

Fred Sommer Suites

“Caligo Beltrao Illiger – Brassolidae”
Negativo ortocromático 6 x 6
Hasselblad Flexbody + Plannar 80mm

Lepidópteros carregam uma simbologia imanente que remete a morte e renovação. Nada há de assustador se entendermos como parte de um ciclo. E com o final do ano se aproximando sinto essa melancolia de quem observa dezembro como um iceberg que  abrirá um rombo no casco da alma. Mas o barco não vai afundar. Tantas vezes topei com referências que ligam as mariposas ao Hades e a visitas oníricas de claros chamamentos de perdão e continuidade. O barco não vai afundar.

Obrigado Ana Marinello pelo Lepidóptero, e ao Alê Bragion pelas conversas luminosas e amigas