Após três noites navegando sem paradas rio acima o barco aportou em Fonte Boa. Não acumulei muitas vivências argonáuticas, nem travessias em grandes extensões fluviais, mas todo esse volume líquido marrom que remete desde sempre à minha amada xícara de café com leite me provoca bocejos involuntários. É tedioso, homogêneo, um horizonte infindável de uma paisagem em loop programada para que sua mente atinja o estado alfa antes do final do primeiro dia de navegação. Algo assim me fez lembrar do artigo de uma socióloga de Bonn que comparou as florestas verticais e organizadas da Alemanha com a quizumba impenetrável e caótica das selvas sul-americanas, e essa eterna nostalgia do europeu nórdico por algo nunca vivido perante o choque de uma realidade gloriosamente antropofágica. Tudo aqui te devora. Os mosquitos, os répteis, os mamíferos, as febres, as gentes… A selva nostálgica que o europeu tanto ansiou, afinal, era tudo o que Freud liberou do inconsciente e que Fitzcarraldo buscou usando o subterfúgio de uma nova rota.



